ALFABETIZAÇÃO DO CORPO

Por mera curiosidade, deparei-me faz pouco tempo com um artigo da professora Marília Claret Geres Duran.

Versava sobre educação infantil e chamou-me a atenção por uma sentença que me soou óbvia: “a aprendizagem da leitura e da escrita não se dá espontaneamente; ao contrário, exige uma ação deliberada do professor e, portanto, uma qualificação de quem ensina”.

Marília Duran é mestre em Psicologia da Educação e conclui doutorado nesse mesmo ramo na PUC/SP.

No artigo de que falo, chamado “Alfabetização: Teoria e Prática”, ela argumenta sobre o desenvolvimento da capacidade de leitura e de escrita no ser humano. Logo depois do período que reproduzi, a professora avança: “ Exige planejamento e decisões a respeito do tipo, freqüência, diversidade, seqüência das atividades de aprendizagem”.

Lendo-a, não pude deixar de fazer um paralelo com o meu próprio universo, o da educação física, de forma geral, e do judô, em particular. Tanto um como o outro, exigem um longo processo de aprendizagem, algo que bem poderia ser chamado de alfabetização do corpo. E nesse campo, a luz do que diz a especialista sobre a alfabetização strictu senso, tenho um depoimento relevante a dar.

Nos últimos anos, de forma intuitiva, desenvolvi uma série de mecanismos que permitem ao profissional de educação física, sobretudo aqueles envolvidos com lutas, a desenvolverem a didática de seu ensino e a melhorarem o aprendizado de seus alunos.

No que tange ao judô, lembro de ter produzido o primeiro mostruário digital de golpes, com fotos, montagens e exibição multimídia, feito para ser armazenado num CD comum; lembro também de ter confeccionado o primeiro material didático para fixação nas paredes das academias, contemplando 128 golpes de todas as divisões do judô; lembro de ter produzido o primeiro programa de computador destinado ao acompanhamento dos alunos pelo professor, inclusive de sua maturação biológica.

Nos últimos meses, tenho desenvolvido avaliações teóricas específicas para cada graduação do judô, disponibilizando a correção em tempo real por intermédio da internet.

Embora tenho demorado a me dar conta, o trabalho consistia basicamente em oferecer uma espécie de marco teórico — construído por mim com o auxílio de mestres já reconhecidos como o estado da arte do judô — para outros professores Brasil afora.

Como o conhecimento não é espontâneo e exige uma qualificação de quem ensina, conforme escrito pela professora paulista, os mecanismos que produzi acabaram se disseminando graças à tecnologia e produzindo efeitos reais.

Hoje, contabilizo mais de 500 academias equipadas com o material didático do que batizei de “Escola de Judô”.

Professores do país inteiro ganharam condições de planejar suas “decisões a respeito do tipo, freqüência, diversidade, seqüência das atividades de aprendizagem” da alfabetização do corpo.

E o resultado pode ser medido pelas competições nacionais, nas quais tem havido ultimamente um ganho de performance considerável de estados de até então pouca expressão no judô.

A construção do marco teórico numa atividade eminentemente prática, como o é a educação física e também o judô, assaltou-me de forma intuitiva.

Mas ajudou a cristalizar em mim a idéia de que o profissional, sobretudo o professor, exerce em plano mais elevado seu sagrado ofício de ensinar quando consegue unir teoria, tecnologia, prática e dedicação a seus alunos em seu modo de operação.

Estou certo de que, hoje, qualquer um pode trilhar por esse caminho virtuoso da educação.

Basta querer.

O material didático citado no artigo pode ser encontrado no site   http://loja.escolanacionaldejudo.com.br/AddMult.asp?IDLoja=8487&autorec=1&idr=1553590021.